
Ricardo D'Elia na capa da saudosa revista karatê
Com um tempo de 52 segundos e 4 quintos, Olegário Ortiz entrou para história do esporte brasileiro como o primeiro recordista sulamericano dos 400 metros rasos. Ele também foi um atleta com títulos em 3 diferentes modalidades: Atletismo (provas de velocidade e Pentatlo), Remo e Natação. Olegário assumiu em 1921 a diretoria de atletismo do glorioso Santos.

A vocação de atleta vitorioso foi transmitida em DNA para a família. Afinal de contas o seu neto é um renomado karateka brasileiro. O nome dele? Ricardo D'Elia. Ele foi considerado um dos mais completos karatekas brasileiros que esteve em ação nos campeonatos brasileiros e paulistas. Foi capa da mais importante revista especializada em Karate do Brasil, a extinta “Karatê”, onde atuou como consultor em reportagens sobre auto defesa. Participou da criação do manual de Karate “Fundamentos, competição e defesa pessoal”. Era adjetivado por Senseis japoneses como “O nascido para o Karate”. Providenciou a despedida do grande Sensei Sasaki do Karate esportivo no Campeonato Paulista de 1974 - "Com um ashibarai e mawashi-geri".
Ricardo D´Elia contra Sasaki em 1974Infelizmente os genes que deram características políticas ao avô de Ricardo, que levaram o velho recordista sulamericano a diretoria do Santos, parece não terem sido transmitidos ao neto. Avesso a política das federações, foi mais um grande karateka da geração de ouro do Karate brasileiro que não participou da consolidação política do Karate depois da criação da CBK, quando o Karate conquistou a autonomia da Confederação Brasileira de Pugilismo. Talvez fosse demais exigir de alguém que tanto se doou e continua contribuindo para o Karate nacional.
Como prova de sua vontade em ainda contribuir com o Karate brasileiro, Ricardo D’Elia gentil e prontamente, resolveu agraciar o site “Karate das Meninas” com a sua inteligência e conhecimento. Este site, que possui em sua gama de leitores, principalmente, o público jovem do Karate brasileiro, se sente honrado e compromissado em transmitir aos mais jovens como o nosso Karate foi construído.
Veja a seguir a entrevista com o “O nascido para o Karate”:
KDM - Conte um pouco da sua história e relação com o Karate. Como e qual o foi o motivo de sua entrada para o “caminho das mãos vazias”?
Ricardo D'Elia - Iniciei no Karate em 1964, aos 16 anos de idade, imediatamente após a morte do meu pai por atropelamento. Fui incentivado a praticá-lo por um primo, médico, que via ali a possibilidade de uma melhora no meu estado emocional, já que havia ficado transtornado e revoltado com esta grande perda. Eu treinava e competia em basquetebol, voleibol e handebol. A indicação não fora tão somente para uma atividade físico–esportiva, mas sim para uma atividade que atuasse mais sobre minha mente. Devo ao Karate muito do pouco que sou, livrou-me de problemas emocionais muito sérios, deu-me uma profissão, condições de construir um lar e uma família maravilhosa, além de me proporcionar uma imagem de bom esportista e momentos emocionantes de treinamento, de combates e de competições. Com o Karate só se ganha!
KDM - Há alguns anos, um pai levou suas crianças a uma academia próxima para matriculá-las no Judô. Convencido por um culto professor de Karate acabou matriculando-as sem saber que tipo ou qualidade de Karate era ensinado naquela academia. Hoje se observa mestres que se dizem 22º dan de um estilo criado por eles mesmos, mas usando o nome de Karate. Como você acha que poderíamos criar mecanismos para proteger o consumidor quando nos referimos ao Karate como serviço?
Ricardo D'Elia - Sendo uma atividade com alto grau de influência sobre a formação física, social e emocional, mais do que qualquer outra modalidade esportiva, deveria haver um controle rigoroso para as academias que pretendessem atender indivíduos menores de 18 anos, obrigando-as a somente compor o seu quadro com professores com formação especializada para lecionar a esta faixa etária.
A Seleção Brasileira de 1974 composta por Antonio Aderne, Dorival Caribé, Ricardo D'Elia, Antonio Fernando Pinto, Ronaldo Carlos da Silva (em pé), Luis Tasuke Watanabe, Ugo Arrigoni e técnico Yasutaka Tanaka (agachados).KDM - Depois que as pessoas entram para o Karate, se deparam com um vasto mundo onde se digladiam os políticos-karatekas, principalmente no Brasil. Como os karatekas podem chegar a um consenso a respeito de suas diversidades?
Ricardo D'Elia - Sendo realista, não acredito que nossa geração verá os karatekas chegarem a uma condição mínima de convívio, muito menos a uma situação de consenso. O atual estado de coisas, deplorável, deteriorado, sem futuro, que se encontra o Karate, foi criado por pessoas despreparadas, incultas, mal formadas socialmente, que há muitos anos lideram e dirigem o Karate de maneira amadora, agindo como se fossem “legítimos proprietários”. Digo mais, aqueles que os apóiam, por benesses e “facilidades”, esquecem que o Karate, que é seu também, está sendo contaminado e seu futuro como professor ou praticante será comprometido, pois está sendo alicerçado em cima de uma base podre.
KDM - Qual a sua opinião sobre a importância do Karate desportivo visto que esta fração da arte marcial é o maior atrativo para a criançada?
Ricardo D'Elia - Sou totalmente favorável as competições esportivas para a criança e o jovem, mas que antes haja, de acordo com a faixa etária, um período somente para o aprendizado do Karate como arte marcial que é em essência, onde o respeito, a disciplina, a hierarquia, o comprometimento e a dedicação, sejam valorizados. A partir daí, nunca abandonando a premissa fundamental, acredito eu, a criança poderá vivenciar uma competição.
KDM - Karate esportivo de alta performance (adultos), como se vê na Europa e Japão, é algo que pode trazer benefícios ao Karate ou os danos causados ao corpo não pagam os benefícios?
Ricardo D'Elia - Todo esporte quando praticado na busca incessante de resultados obriga seu praticante a submeter-se por longos períodos de treinamento físico e técnico com alta intensidade. Hoje em dia, com os avanços da Medicina do Esporte, da Fisiologia, da Fisioterapia, da Nutrição, da Psicologia no Esporte e, principalmente, dos métodos de Treinamento Desportivo, os riscos e os danos decorrentes da prática esportiva em geral, aí incluindo o Karate, podem ser atenuados com uma supervisão competente. O Karate não tem o privilégio de estar isento de danos causados pela sua prática, mas certamente não é o primeiro da fila.
KDM - Os karatekas esportivos de hoje são melhores que os da sua época? O que os diferencia?
Ricardo D'Elia - Lembrando que sou apreciador do Karate esportivo e sem entrar no mérito do que tem maior valor, a arte marcial ou a competição, na minha visão, os competidores de hoje são atletas nem melhores nem piores que os da minha época, apenas praticam quase que outro esporte, onde o conceito, as conotações e as circunstâncias da luta, com características menos formais, onde “a vida não está em jogo”. Para justificar minha colocação acima, posso dizer numa avaliação imediata que com a mudança do regulamento, com o aumento do tempo de luta e com a divisão das categorias por peso, o Karate em competições passou a ter uma nova dinâmica, obrigando o karateka a alterar radicalmente a composição do treinamento, com muita ênfase na preparação física e estratégias de luta, e, principalmente, na forma de treinar suas técnicas. Vou mais longe, se compararmos os fundamentos treinados há 18 anos e agora, constataremos mudanças importantes na biomecânica do movimento dos principais golpes utilizados em combate, daí minha afirmação que o Karate arte marcial e o Karate competição são atividades diversas.
KDM - Em várias reportagens observamos que o Karate é muito parecido com aquelas folhas lá do mercado do Ver-O-Peso lá de Belém do Pará. Serve para tudo. Serve para o combate ao bulling (violência e intimidação em idade escolar), pessoas que praticamente saíram de cadeiras de rodas depois que começaram a praticar Karate, pessoas com síndrome de down e deficiência intelectual, atuando de forma magistral ao executar kata em campeonatos de Karate. Enfim, o Karate tem uma fonte muito grande de atração para o público. Por outro lado o que observamos no Brasil é que há apenas crescimento do Karate em número de praticantes, geralmente ligados aos projetos sociais. O que falta para os Sensei brasileiros programarem este potencial e desenvolver o Karate?
Ricardo D'Elia - Os professores carecem de uma melhor formação social e educacional, portanto o exemplo não deve ser só “no soco e no chute”, mas, principalmente, de aprimorar quem desfere os “golpes”, coisa que passa longe da maioria da cabeça de muitos professores brasileiros e japoneses também.
KDM - Em torno de 60% dos novos alunos abandonam o Karate antes dos seis primeiros meses. O treinamento de Karate por si só, sem falar em Karate de alto rendimento esportivo, é muito duro, principalmente para crianças. Como manter o interesse das crianças pela fase inicial de treinamento do Karate?
Ricardo D'Elia - No aprendizado de qualquer atividade física as crianças lidam com “barreiras”, a toda sessão ou aula, para a grande maioria quase que instransponíveis e para pouquíssimos quase que imperceptíveis. Cabe ao professor a responsabilidade de diminuí-las perante os olhos dos seus alunos. Sem dúvida este é o fator fundamental para o sucesso do professor na sua empreitada, mas no meu entender, o turn-over só poderá ser atenuado quando houver maior participação da família para que seja cultivada uma maior fidelidade à academia. Sendo o aprendizado o cerne da questão, para a sua evolução deve-se criar um ambiente extremamente confortável e acolhedor, através de uma atividade física de intensidade moderada, onde os movimentos (técnicas próprias da arte marcial) sejam decompostos para melhor aprendizado motor, onde haja um sentido de desafio (exercícios de luta) constante para a execução dos mesmos, e lá mesmo, as noções básicas de hierarquia, disciplina e respeito sejam valorizados e exaltados todo o tempo. O Karate tem que ser “climatizado” para os baixinhos, só assim, creio eu, haverá maior interesse por parte deles.
KDM - Comente sobre o 3 manuais que aglutinaram o que hoje parece heresia caminharem juntos para muitos karatekas: fundamentos, competição e defesa pessoal.
Ricardo D'Elia - Na época da criação dos manuais, primeira edição em 1982, eu via o Karate de uma forma mais inovadora, desde que, mantida a essência da arte marcial, tudo era possível para aprimorar as técnicas e as necessidades individuais. Surgiu então a ideia, seguindo uma rotina fotográfica já vista em alguns livros, de por no papel aquilo que eu já fazia com meus alunos e atletas na academia e treinamentos à frente da Seleção Paulista. Para ilustrar meu relato, os melhores atletas brasileiros da época, Ugo Arrigoni, Ronaldo Carlos, Ennio Vezzuli, Antonio Fernando, Robson Maciel, Yohanes Freiberg, apoiaram a iniciativa dando uma contribuição inestimável, com suas participações e as técnicas demonstradas nos manuais, sentindo que tínhamos ali um caminho correto e seguro para contribuir com o Karate.
KDM - Algo chato para se comentar, política no Karate. Depois que o Karate se desvinculou da Confederação de Pugilismo o que faltou para a CBK não só manter unido o Karate, mas crescer como instituição de administração, afinal de contas, depois do futebol é o Karate que possui o maior número de federados.
Ricardo D'Elia - O Mestre Denílson Caribé, um grande homem e um excelente karateka, foi sem dúvida o maior líder e mentor do Karate nacional em todos os tempos. Tive a grande honra de desfrutar da sua verdadeira amizade, e dos seus irmãos Dorival e Djalma, igualmente pessoas decentes e de grande caráter, possuidores de um Karate de alta linhagem. Era ele quem mantinha a ordem na “casa”, já que os mestres japoneses tinham por ele grande respeito, respeito de verdade, fazendo o Departamento Especial de Karate, da Confederação Brasileira de Pugilismo – CBP, andar nos eixos, com a morte prematura do Mestre Denílson, o Karate perdeu muito, a cúpula ficou totalmente acéfala e desagregada. Neste ínterim, fundou-se a CBK ... e aí conhecemos o resto!
KDM - A participação da JKA em eventos da WKF acena para uma possível re-união do Karate como um todo?
Ricardo D'Elia - Há muito venho ouvindo e vendo tentativas de aproximação dos cabeças das duas entidades, mas em mais de 20 anos nada de concreto houve.
KDM - O Karate tem potencial para atrair patrocínio e não só para o esporte especificamente. O problema é que fica muito dúbio para leigos entenderem o que é Karate, afinal são tantas divisões e todas se dizendo que praticam o verdadeiro Karate. Há alguns anos, a Secretaria de Esporte do Estado do Pará criou a Copa das Confederações, um torneio que colocava todas as federações (interestilos, tradicional, e a chamada “oficial” além de outras) em competição. O vencedor do torneio levava a verba da secretaria do orçamento do ano direcionada ao Karate. Qual seria a melhor maneira para os órgãos governamentais direcionarem o dinheiro para o Karate e desta maneira servir como guia para os investimentos privados?
Ricardo D'Elia - Os investimentos e os patrocínios voltarão, quando os órgãos governamentais tiverem em seus quadros pessoas com conhecimento técnico e administrativo, possuidores de atitudes sérias e espírito empreendedor, que dêem prevalência a competência e a qualidade, para que normas e regras esportivas não sejam criadas à sombra de interesses politiqueiros.
KDM - Você é a favor da entrada do Karate nas Olimpíadas? Quais benefícios e males podem trazer à arte marcial se esta for inserida no programa olímpico?
Ricardo D'Elia - Há mais de 20 anos que ouço falar sobre o acesso do Karate aos Jogos Olímpicos. Também sempre se falou que o Karate necessitava ser mais “visual”, mais “plástico”, ou seja, combates com menor contundência, menor nível de contato, para, teoricamente, gerar menos acidentes. Penso que se assim for nós karatekas teremos mais perdas do que ganhos, mesmo que com um maior número de adeptos o Karate seja mais valorizado pela opinião pública.
KDM - Karate para a terceira idade é muito difundido nos Estados Unidos para resolver problemas de coluna. Porém, em várias reportagens do site “Karatê das Meninas”, observa-se que os velhinhos que estudam Karate também estão se defendendo na rua. O que você acha de alunos novos com mais de 40 ou 50 anos de idade no Karate?
Ricardo D'Elia - O brasileiro na meia idade tornou-se mais atual, usa roupas semelhantes a dos seus filhos, usa um linguajar moderno, vai aos mesmos lugares que eles vão e freqüenta as academias de ginástica, o indivíduo na terceira idade é, hoje em dia, mais longevo e participante, tem atitudes mais positivas e criativas. Porque então não treinar Karate para a saúde e levar ainda como bônus um importante acessório para defesa pessoal? Todos os especialistas dizem que os idosos são um grande filão inexplorado.
KDM - No último seletivo para formação da seleção fluminense de Karate das categorias de base da FKERJ se observou as arquibancadas cheias, mesmo em dia de decisão de Campeonato Estadual de Futebol. Como poderíamos fazer para que as arquibancadas do Karate voltassem a ficar lotadas como nas décadas de 60 e 70 Brasil afora?
Ricardo D'Elia - Quando se trata de competições que tenham na sua maioria crianças e adolescentes, a abrangência e influência de integrantes da família é muito grande, envolvendo em média de 2 à 3 pessoas por cada criança, só este efetivo já consiste num público considerável.
KDM - Em sua opinião, qual o diferencial que o Rio de Janeiro possui nas divisões de base para ter virado o papa-títulos de campeonatos brasileiros da CBK, deixando para trás estados tradicionais como Bahia, São Paulo, Minas Gerais entre outros?
Ricardo D'Elia - Não tenho opinião formada à respeito. (No momento da formulação desta pergunta, esquecemos que o Ricardo D´Elia é paulista. Supomos que ele deve ter ficado bem chateado com esta afirmação).
KDM - Qual a sua mensagem para as crianças que hoje amarram sua faixa branca em suas primeiras aulas pelos Dojôs espalhados pelo Brasil?
Ricardo D'Elia - O Karate deve ser visto como um grande amigo. Traz com ele coisas muito boas, deixa o corpo mais forte por dentro e por fora, dá uma condição diferenciada entre a maior parte dos jovens, melhora a agilidade e resistência para outros esportes, dá uma acalmada nas “emoções” e ajuda muito a manter e fazer amigos. Sem falar que quando se participa de um campeonato de kata ou kumite, e o seu nome é chamado para entrar na área de competição... chega o momento, todos olhando para o centro da quadra, os pais e irmãos na torcida... é a melhor sensação do mundo. Quem puder experimente!
Ricardo D´Elia também faz parte da galeria dos grandes mestres do karatê no "Karatê de A a Z".


2 comentários:
Ehh... Realmente ser campeão está no sangue do Ricardo, não só no esporte, mas também na sua vida pessoal. Por termos importantes karatecas como o Ricardo Delia, que faz parte da história desse esporte, acredito que poderá melhorar e mudar a história atual dos nossos karatecas, com a sua competência, inteligência idéias e experiência.
Felizmente pude conhecê-lo e concordo...
Com o karatê só se ganha!
Obrigada KDM pela entrevista e obrigada Ricardo Delia pela sua existência e importancia da minha vida...
Karina
Ehh... Realmente ser campeão está no sangue do Ricardo, não só no esporte, mas também na sua vida pessoal. Por termos importantes karatecas como o Ricardo Delia, que faz parte da história desse esporte, acredito que poderá melhorar e mudar a história atual dos nossos karatecas, com a sua competência, inteligência idéias e experiência.
Felizmente pude conhecê-lo e concordo...
Com o karatê só se ganha!
Obrigada KDM pela entrevista e obrigada Ricardo Delia pela sua existência e importancia da minha vida...
Karina
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